Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes
 pessoais não contam.

Não faças poesias com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo,
tão inofensivo à efusão lírica.
Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor
no escuro são indiferentes.
Nem me revele seus sentimentos, que se
prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das maquinas
nem o segredo das casas.
Não é a música ouvida de passagem:
rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.
(..............)
penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intacta.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.

Espera que cada um se realize e consuma
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.

Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o como ele
aceitará sua forma definitiva e concentrada no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
Ermas de melodia e conceito,
Elas se refugiam na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.

(Em A ROSA DO POVO - fragmentos)
Carlos Drummond de Andrade

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