Senhor, por que estas grades?
Vossa casa é doce e acolhedora
Nela os homens têm toda a paz
Que em seus corações sozinhos
Não conseguem nunca.
Vossa casa é pobre na terra
Rica tão somente
Do desejo enorme de fazer felizes
Todos que a vão buscar.

Por que tantas grades?
O mundo era bonito
As portas sempre abertas
As preces murmuradas
Cantadas em latim.
Os homens mais humanos
Por Ti se ajoelhavam
E esmolas colocavam
Nas mãos que se estendiam.

Senhor, por que estas grades?
Na rua há tanta gente
Crianças solitárias
Mulheres a chorar
Homens esfarrapados
O frio vem chegando
Ao corpo e ao coração
E há gente tão sofrida
Que até desdenha o pão.

Por que as grades?
Se a miséria é grande assim
E o homem mata por nada
Deixa a casa sem imagem
Vazia de tudo, vazia...
Deixa a vossa casa escancarada
Cheia só desta amplidão
De amor e paz que faz bem
Não deixa estas grades não.

Talvez os homens consigam
Pela porta reaberta
Na casa vazia ouvir
Vosso soluço de alerta.

Célia Lamounier de Araújo
(em Sirgas e Organsins)

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